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"para as autoridades, nossos filhos são estatísticas, criminosos; para nós, são a vida": ativismo de mães entre brasil e méxico

8/26/2025

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Alyssa Ribeiro Perpeto Trotte
Em julho de 1990, onze jovens entre 15 e 18 anos desapareceram forçadamente em Magé, no Rio de Janeiro, evento que passou a ser conhecido como Chacina de Acari. Entre as vítimas estava o filho de Edméia da Silva Euzébio, mulher negra de 47anos. Fundadora do coletivo Mães de Acari, Edméia passou três anos exigindo respostas sobre o paradeiro do seu filho, mas em 1993 foi assassinada, junto com a sobrinha, em plena luz do dia, no centro da cidade. Seu assassinato permanece sem solução, assim como o da chacina que marcou o início de uma mobilização que inspiraria dezenas de outros coletivos de mães no Brasil. Décadas depois, em 2023, Bernadette Pacífico, liderança quilombola, ialorixá e coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), de 72 anos, foi morta enquanto buscava justiça pelo assassinato de seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, ocorrido seis anos antes. Essas mortes revelam que a violência intrínseca contra as mulheres que buscam justiça seguem como prática constante, com alvos preferenciais: mulheres negras e pobres.
O desaparecimento forçado, uma das expressões da violência e da ilegalidade do Estado, é classificado pela legislação brasileira apenas como uma “ocorrência atípica”, sem reconhecimento da gravidade que o caracteriza. A consequência é um quadro de impunidade e negligência. Em 2024, foram mais de 80 mil registros de desaparecimento no país, sendo que muitos não resultam em localização. A naturalização desse crime se expressa no cotidiano de mães como Vera Lúcia Flores, que perdeu a filha Cristiane, na Chacina de Acari, e nunca pôde enterrá-la. Ela dizia: “A justiça diz: sem corpo, sem crime. No entanto, eu tenho uma certidão de nascimento, certo? Alguém nasceu aqui de mim. Eu tenho a certidão de nascimento, mas não tenho a certidão de óbito porque eles não me deram uma chance”. Sua filha mais nova, Aline, herdou a busca e a denúncia: “Minha mãe falava: ‘Eu pari uma filha’. Até hoje, eu não pude enterrar a minha mãe, que já se foi, e ela não pôde enterrar a sua filha, a minha irmã”. 
Desde 1990, mães e familiares criaram coletivos em resposta direta a violência do Estado, sobretudo nas periferias do Rio de Janeiro. Depois das Mães de Acari, podemos citar o surgimento do Candelária Nunca Mais!, o Movimento Posso Me Identificar?, o Movimento Moleque, a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, o Coletivo Mães de Manguinhos, a Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado, a Frente Estadual pelo Desencarceramento e, em São Paulo, o movimento Mães de Maio, nascido em 2006 após assassinatos ligados a uma rebelião do Primeiro Comando da Capital. Em comum, essas organizações foram fundadas após massacres, assassinatos ou desaparecimentos forçados, e assumem o papel de preservar a memória dos filhos e denunciar a violência do Estado.
No México, a situação é igualmente grave. O país carrega o legado da “guerra suja” dos anos 1970, quando o desaparecimento foi usado pelo Estado como instrumento de repressão contra movimentos sociais. Mas foi a partir da chamada “guerra às drogas”, em 2006, que os números dispararam. Em 2023, o Registro Nacional contabilizava mais de 111 mil pessoas desaparecidas. Muitas famílias, no entanto, sequer registram oficialmente os casos, diante da resistência das autoridades em abrir investigações. O resultado é a mesma combinação de omissão e violência que se observa no Brasil. Nesse contexto emergem as Madres Buscadoras, como o coletivo de Sonora, liderado por Ceci Flores. Após o desaparecimento de dois filhos, ela iniciou buscas por conta própria, aprendendo a manejar pás, varas e enxadas para escavar o solo em busca de ossadas. Em 2019, conseguiu localizar um dos filhos com vida, mas até hoje não encontrou o outro. A experiência a levou a organizar transmissões ao vivo nas redes sociais, mobilizando centenas de mulheres em todo o país. Hoje, estima-se que dois mil familiares participem dessa luta coletiva. Como disse a própria Ceci, “a busca teve que ser feita por nós mesmas, porque as autoridades nunca vão fazê-la”.
O ativismo das mães tem um custo altíssimo para suas vidas. Entre 2014 e 2023, ao menos quinze buscadoras foram assassinadas no México, em estados como Veracruz, Sonora, Tamaulipas e Guanajuato. O caso de Marisela Escobedo, que investigava o assassinato da filha e foi executada em 2010 diante do Palácio do Governo em Chihuahua, tornou-se emblemático. Desde então, muitas outras mulheres foram mortas pela ousadia de exigir justiça. Em 2022, duas buscadoras de Sonora, Brenda Beltrán e Gladys Aranza Ramos, foram assassinadas em circunstâncias distintas: uma por alguém próximo, outra por integrantes de cartéis. A líder Ceci Flores também relata perseguições e difamações, inclusive por parte do presidente Andrés Manuel López Obrador, que a acusou publicamente de lucrar com a dor. No Brasil, o caso das Mães de Maio é emblemático. Muitas foram perseguidas e ameaçadas de morte, como no caso de Vera Lucia dos Santos, que perdeu não apenas sua filha caçula, a futura neta e o genro, mas também foi incriminada por tráfico de drogas pela polícia, o que ocasionou em sua prisão durante dois anos e seis meses. No caso dos crimes de maio, a tentativa de plantar drogas por parte dos policiais virou um modus operandi: Ednalva Santos foi acusada de tráfico em 2007 e ficou presa oito dias e Maria Goreti Rodinick Marques foi ameaçada por André Ferreira da Silva, cabo da polícia militar, que tentou prendê-la posteriormente por tráfico de drogas. A promotora do caso, Ana Maria Frigério Molinari, acusou as Mães de Maio de serem ligadas ao crime organizado e estarem denunciando policiais que “combatiam o tráfico de drogas”.
No Brasil e no México, a busca por justiça não significa apenas enfrentar a dor do desaparecimento ou do assassinato, mas também desafiar cartéis, milícias, policiais e governos. Muitas dessas mães desenvolvem estratégias de autoproteção, mas, ainda assim, vivem permanentemente sob ameaça de morte. Ana Paula Oliveira, do Mães de Manguinhos, relata: “Alguns anos atrás, não consigo lembrar exatamente qual ano foi, mas eu estava com a Fátima; acho que foi em 2016 ou 2017, não tenho certeza, tínhamos acabado de dar uma entrevista. Estávamos as duas usando camisetas com fotos dos nossos filhos. [...] Na volta para dentro da favela [de Manguinhos], de repente vimos dois meninos correndo e policiais os perseguindo. Os policiais estavam apontando suas armas, gritando para atirar, e nós começamos a gritar: ‘Não atira! Não atira!’ – completamente desesperadas, gritando. [...] Os policiais disseram: ‘Vocês não têm nada que estar aqui’. Respondemos: ‘Estamos aqui para observar a abordagem. Temos o direito de observar como vocês estão conduzindo essa ação… porque já perdemos nossos filhos para a violência policial, e não queremos ver outras crianças sendo mortas’. Eles ficaram furiosos, e um deles veio com um fuzil. Foi a primeira vez que tive um fuzil apontado diretamente para o meu peito. Pareciam completamente descontrolados. [...] Agora, a Fátima, que é outra integrante, passou por isso também. Uma vez ela questionou outra abordagem, e disseram para ela sair da janela – ‘Tira esse rosto da janela, senão a gente atira em você’. Então sim, já houve ameaças bem diretas”. 
As histórias se multiplicam e, ao mesmo tempo, se repetem. No Brasil, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o país em 2024 pelo caso Acari, reconhecendo a responsabilidade do Estado pelo desaparecimento dos jovens e pelo assassinato de Edméia da Silva Euzébio. Também condenou o Brasil no caso de Almir Muniz da Silva, um trabalhador rural desaparecido na Paraíba. No México, os relatórios internacionais denunciam a omissão governamental e a impunidade quase total dos crimes. Mas, apesar das condenações, os desaparecimentos, tal como assassinatos e torturas, seguem acontecendo. Como afirma Ceci Flores, “para as autoridades, nossos filhos são estatísticas, mas para nós eles são a vida”. As mães continuam sozinhas em suas buscas, sendo as principais mobilizadoras históricas, sobretudo na região da América Latina, na organização de movimentos sociais por justiça às vítimas de violência. O Estado dá continuidade em suas violações históricas, utilizando-se da morte como estratégia de governar a cidade e como meio para reprodução do capitalismo, apresentando facetas múltiplas da violência no tecido da vida cotidiana, onde os corpos pretos e favelados são, por regra, o alvo. 

[1] Este texto têm por diálogo central as reflexões conduzidas no capítulo “The enforced disappearing of people and the activism of women buscadoras: A Case Study in Mexico and Brazil (2000-2024)”, por Alyssa Trotte e Simone da Silva Ribeiro Gomes (forthcoming), para a Palgrave Handbook of Criminology and the Global South. 

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