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Quando Água vira arma de guerra: água, ocupação e genocídio na Palestina

8/19/2025

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Giovanna Monteiro-Macedo

Fotografia
Fotografia: Anadolu/Getty
​“Eu não posso lavar o meu cabelo por causa da ocupação israelense”. Assim começa o vídeo no TikTok da jornalista palestina Leila Warah exatamente um dia antes do início do genocídio em Gaza. Ela mostra que todos os “tanques d’água” que ficam no telhado da sua casa estão sem água porque a família só a recebe a cada 15 ou 20 dias, “e se acaba você fica sem até o próximo refil”. No vídeo, de forma muito didática, a jornalista explica a ocupação e o controle da rede de água na Cisjordânia Palestina e como isso afeta a vida cotidiana dela e da sua família.
As imagens de homens, mulheres e crianças carregando galões em Gaza, desde outubro de 2023, tornam visível a outra face dessa política: a destruição deliberada das fontes de água, as filas organizadas por voluntários para distribuir alguns litros por família e a transformação da sobrevivência em rotina de improvisos. Entre as muitas violências do genocídio em Gaza, a eliminação do acesso à água impede não só a continuidade da vida, mas também a sua reprodução cotidiana. Quando o objetivo é a morte, a água se torna campo de guerra.
Antes do genocídio a situação já era grave. Na Cisjordânia, o controle parcial das fontes de água na Palestina começou em 1948 com a criação do Estado de Israel, e se intensificou e 1967 e 1993 com a ocupação militar dos territórios palestinos e os Acordos de Oslo, respectivamente. Em agosto de 1967, o governo militar emitiu a Ordem 921, que concedeu total autoridade sobre as questões relacionadas à água nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) ao exército de Israel.
Poucos meses depois, a Ordem 158 estipulou que os palestinos não poderiam construir instalações de  água sem  obter  uma  licença  emitida  pelo exército,  e  qualquer  construção sem licença poderia ser demolida. Os arranjos com  relação  a  terra  e  água,  que  eram  anteriores  à  ocupação, são  anulados pela Ordem 291 de dezembro de 1968. Esse conjunto burocrático significava que todos os poços, encanamentos e tanques de água que fossem construídos deveriam passar  pelo  crivo  israelense,  ao  mesmo  tempo  que  novos  assentamentos  estavam  sendo  instaurados  sob  legislação  civil,  ou  seja,  sem  que  essas  Ordens  fossem  válidas  para  eles.  Um mesmo  território  então  passa  a  ser  constituído  com  diferentes legalidades e com base em um apartheid hidrológico (Graham; Desai; McFarlane,  2013)  que  ativamente  negava  a  boa  parte  da  população  palestina  o  acesso a água.
Em  conjunto  com  a  emissão  das  Ordens  Militares,  o  governo  da  ocupação  assumiu o controle do Departamento de Água da Cisjordânia (WBWD)[1],  passando a controlar cerca  de  treze  poços. A partir disso, a  água  passou  a  ser  vendida  para as  comunidades palestinas  e os  assentamentos israelenses.  Essa infraestrutura  urbana controlada  pelo governo militar em 1982 é entregue à empresa israelense Mekorot[2]. No começo dos anos 1990, os Acordos de Oslo institucionalizam a hidro-hegemonia israelense sobre as fontes de água (Rudolph, 2020). À Autoridade Palestina (AP) ficou a responsabilidade de gerenciar o abastecimento, ou seja, comprar a água de Israel e distribuir para a população palestina das áreas A e B[3] principalmente, e a manutenção da infraestrutura existente de água.
Nos locais em que não há encanamento ou necessidadede manutenção, a AP também é responsável pelos caminhões-pipas para abastecimento dos vilarejos e bairros. Na maioria dos casos esse abastecimento é feito por caminhões privados e por movimentações da própria população (Rudolph, 2020; Internacional, 2009). Esse controle e a complexa assimetria de não cooperação produzem impactos na rotina dos palestinos e principalmente das palestinas. As mulheres precisam gerenciar o uso da água dentro das casas em conjunto com as tarefas domésticas, produzindo uma vida “em função da água” (Monteiro-Macedo, 2024). É importante ressaltar que os assentamentos israelenses que ficam a metros de distância de algumas cidades palestinas recebem água em fluxo contínuo. O problema não é a falta d’água, é a ocupação.
Em Gaza a situação era diferente. Desde agosto de 2005 Israel não ocupava o território, que estava sob administração do Hamas. A Faixa, no entanto, possui os lençóis freáticos mais contaminados da região, o que levou a uma dependência de ajuda humanitária para o tratamento de água e a compra de água potável. A situação piorou a partir de bombardeios deliberados em novembro de 2023 às plantas da Estação de tratamento de águas residuais da região central de Gaza apoiada pela União Europeia (GCDP) e da destruição da rede de distribuição nas cidades. Além disso, recorrentemente o governo israelense tem bloqueado a chegada de alimentos e de água para a população palestina em Gaza, produzindo a maior crise humanitária do século XXI, com mais de 55 mil mortos. Atualmente os palestinos em gaza tem acesso a 4,74L de água por dia/por pessoa, um terço do recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Portanto, a água não é só um recurso vital, mas também um alvo. Na Cisjordânia, o controle burocrático sobre poços, encanamentos e cisternas produz uma escassez planejada. Em Gaza, os bombardeios às estações de tratamento e a destruição da rede transformam o cotidiano em filas intermináveis por alguns litros. O que está em jogo não é a falta de água, mas a forma como a ocupação e o genocídio operam sobre ela. Entre tanques esvaziados no telhado e caminhões-pipa que nunca chegam, a vida é organizada em torno da espera, do improviso e da gestão do mínimo. É nesse cotidiano que a violência se mostra. Não apenas nas explosões, mas também na secura lenta das torneiras.


[1] O WBWD foi estabelecido em 1966 para manter o sistema de abastecimento de água da Cisjordânia

[2] A empresa passa a operar 42 poços, que em sua maioria distribuem água para os assentamentos, mas ela também vende para o governo palestino desde os Acordos de Oslo. A quantidade de água vendida para os palestinos é determinada pelo governo de Israel.

[3] A divisão da Cisjordânia em áreas A, B e C foi estabelecida pelos Acordos de Oslo (1993–1995) como uma medida provisória de cinco anos, mas permanece vigente até hoje. Área A (aprox. 18%) concentra os principais centros urbanos palestinos e está formalmente sob controle civil e de segurança da Autoridade Palestina. Área B (cerca de 22%) corresponde a vilas e zonas rurais palestinas, com administração civil palestina, mas segurança compartilhada com Israel. Área C (cerca de 60%), que inclui terras agrícolas, recursos hídricos e todas as colônias israelenses, permaneceu sob total controle militar e administrativo de Israel. Na prática, essa divisão institucionalizou um regime fragmentado de soberania e mobilidade, em que a Autoridade Palestina exerce poderes limitados e dependentes, enquanto Israel mantém controle sobre fronteiras, circulação, segurança e recursos estratégicos.
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