O que o risco saúde-climático no trabalho na amazônia (altamira, pa) diz sobre a vida nas cidades?12/2/2025 Jean-François Véran e Sarah Beatriz Oliveira do Nascimento O CLISEVE© é uma plataforma internacional com foco nos impactos das mudanças climáticas na saúde física e mental em contexto de trabalho ao ar livre, a partir da perspectiva dos trabalhadores. A sua primeira aplicação com os trabalhadores do setor vitivinícola na França mostrou que 92% dos respondentes se preocupam com o impacto das mudanças climáticas e 80% apontam uma sintomatologia ligada a essas mudanças - como o aumento de doenças (a dengue começa a assolar os trabalhadores em território francês), a desidratação e a incidência de desmaios. Os respondentes também indicam efeitos ligados à produtividade, como a baixa de atenção; 84% declaram, inclusive, que os fortes picos de calor podem ser um motivo para abandonar o setor de trabalho (CLISEVE© Viticulture, 2024). Esses resultados expressam como, num dos setores mais lucrativos de um país considerado “de primeiro mundo”, os trabalhadores ao ar livre estão vulneráveis, bem como o futuro de atividades fundamentais para a vida social e econômica.
Enquanto os estudos epidemiológicos e meteorológicos avançam na produção de indicadores que servem para guiar a decisão de governos e empresas, e os proprietários das terras mais ricas de produção de vinho buscam comprar terrenos em regiões mais frias, les vendangeurs - os trabalhadores sazonais do vinho, na maioria das vezes pobres, jovens e imigrantes - seguem sob o risco de adoecer e perder suas fontes de subsistência, e acabam se responsabilizando pela própria proteção e adaptação. Constatou-se então a necessidade de colher a voz dos que sentem os efeitos cotidianamente, de criar indicadores sobre os impactos das mudanças climáticas no trabalho e de juntar atores que ainda não estão dialogando. O CLISEVE© transforma a experiência dos trabalhadores em dados e indicadores que possam ser instrumento de reivindicação de movimentos sociais, que conduzam a adaptação ao clima pela política pública e/ou pela política interna das empresas. Ele supre uma lacuna, a partir de uma perspectiva das Ciências Sociais Aplicadas, entre epidemiólogos e meteorologistas, buscando produzir a percepção dos trabalhadores como evidência do impacto climático, legítima de ser mobilizada em espaços de decisão. Nesse sentido, o estudo CLISEVE© se expandiu para outras aplicações. Entre dezembro de 2024 e março de 2025, teve sua primeira experiência no Brasil, em Altamira, no mesmo estado que esse ano recebeu a COP-30, no Pará. Altamira, que é o maior município em extensão territorial do Brasil, é o que estamos chamando de “território complexo”. Situada em meio à Floresta amazônica e banhada pelo Rio Xingu, tem configuração territorial composta por um centro urbano, periferias, territórios indígenas, reservas extrativistas, zonas rurais, de latifundiários e “sem dono”, e ilhas ao longo do Xingu e Igarapés. É habitada por indígenas e ribeirinhos e marcada historicamente por megaempreendimentos nacionais que provocaram intensos fluxos migratórios, como a construção da Transamazônica (1970-1972) e a instalação da Hidrelétrica de Belo Monte (2010-2019). Atualmente está ameaçada pela empresa canadense Belo Sun, que implementa no território um projeto de mineração. Com 126.279 habitantes (Censo 2022), tem uma economia baseada no comércio local e na exportação de insumos agrícolas - destaca-se o cacau,exportado nacional e internacionalmente. Atravessou secas excepcionais entre 2023 e 2024 (Decretos nº 2993/2023 e n.º 3757/2024), com impactos significativos para a mobilidade, a economia local e a preservação ambiental. Já no campo exploratório, ficou evidente que abordar os impactos do clima na saúde e saúde mental dos trabalhadores de Altamira implicava compreender visões de cidade - a cidade atravessada pela Transamazônica no contexto da colonização da Amazônia, que sedia a maior hidrelétrica 100% brasileira (Belo Monte), que transformou profundamente o território e os modos de vida, e em que se constrói, pela iniciativa privada, a maior mina de ouro a céu aberto. Implicava entender as atividades de trabalho num contexto interurbano, em que campo e centro se conectam pelas trocas comerciais, abastecimento de recursos e acesso a direitos. Demandava colher a experiência dos agricultores, extrativistas, mineradores, pescadores, motoristas, moto-taxistas, entregadores, garis, policiais, vendedores ambulantes: todos os que possuem atividade ao ar livre. E assim o fizemos. Acompanhados de uma equipe de 12 pessoas, formada por 10 universitários locais, 1 psicóloga e 1 trabalhadora social, construímos uma pesquisa de metodologia mista, com aplicação de questionários nos principais pontos de circulação da cidade. E, dessa vez, além das percepções da mudança do clima, dos impactos nas rotinas de trabalho e da sintomatologia, adicionamos perguntas sobre a vida urbana: como os moradores circulam na cidade (com qual meio de transporte) e o que acontece com sua movimentação sob os impactos do clima? Quais problemas da cidade são agravados em condições de extremos climáticos? Como a cidade de Altamira vem se articulando com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU? O que precisam? O que já fazem para se adaptar? Esse estudo sobre clima, saúde e trabalho numa cidade amazônica demonstrou que o transporte é uma questão estrutural em Altamira (PA) - e um fator de vulnerabilidade. Os moradores que dependem da balsa e das voadeiras para irem ao centro urbano não podem fazê-lo em condição de extremos climáticos, pois o nível do Xingu baixa, tornando a travessia difícil e perigosa. Acessos a prédios públicos, como escolas, hospitais e instituições mediadoras de direitos, como o Sindicato da Agricultura Familiar de Altamira, que auxiliam agricultores na reivindicação de regulamentação de terras, documentos de posse e benefícios, são interrompidos. Os moradores dos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs), construídos para abrigar a população deslocada forçadamente pelo empreendimento Norte Energia para a construção de Belo Monte, já são - e sob eventos climáticos ficam ainda mais - isolados, com um sistema de transporte público ineficiente e ruas que se tornam difíceis de atravessar na incidência de grandes chuvas, que ficam tomadas de lama. Também no centro da cidade, em dias de alto verão amazônico e nos últimos dois anos de seca excepcional, a fumaça atrapalha a circulação de pedestres e motoristas. Outra questão fundamental é a de acesso à água. Em tempos de seca, o problema de transporte incide sobre indígenas e ribeirinhos que abastecem seus locais de moradia com a água comprada na cidade. A infraestrutura de água encanada prometida pela Norte Energia - uma condicionalidade do Plano Básico Ambiental (PBA) para a construção de Belo Monte - nunca chegou a ser totalmente implementada, apresentando dificuldades de distribuição e interrupções constantes em áreas rurais e urbanas. Moradores de RUCs fazem vaquinha para abastecimento com caminhões-pipa, e mesmo os moradores do centro sofrem com a falta d’água. Entre as queimadas e as dificuldades de acesso à água, a realidade da população de Altamira revela um cenário crítico e um tanto paradoxal: em meio à Amazônia, tomada internacionalmente como o “pulmão do mundo”, não se respira, e, banhada pelo Rio Xingu, afluente da maior bacia hidrográfica do mundo - a Bacia Amazônica - há escassez de água. Os trabalhadores ao ar livre de Altamira percebem essa realidade como uma violência, como disse um dos respondentes do estudo CLISEVE©: “a verdadeira violência é a falta d’água”. O relatório demonstra que estas são somatizadas ao aumento da competição por recursos, à disputa fundiária, e às ameaças, violências físicas e verbais que também aparecem ligadas às mudanças climáticas. Esses são apenas alguns elementos qualitativos do que encontramos falando sobre o clima. O relatório CLISEVE© Altamira conta com uma base amostral de 899 questionários, 30 entrevistas qualitativas, e já está disponível, trazendo essas e outras intersecções. Leia na íntegra em: https://www.academia.edu/145022007/O_RISCO_SA%C3%9ADE_CLIM%C3%81TICO_NO_TRABALHO_NA_AMAZ%C3%94NIA_ALTAMIRA_PA_. O CLISEVE© é uma plataforma internacional criada por Croissance Bleue e Laboratório de Antropologia Aplicada (LAPA-Research/ PPGECC/ UFRJ). O CLISEVE© Altamira integra o projeto internacional CONTER - Land conflicts on fronts of expansion (Brazilian Amazonia) (ANR-21-CE41-0021), financiado pela Agence Nationale de la Recherche (ANR). Dentro desse arranjo, o CLISEVE© funciona como subprojeto, dedicado ao risco saúde-climático no trabalho na região de Altamira. A coordenação é compartilhada entre LAPA-Research, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), École Haute d’études en sciences sociales (EHESS) e apoiada pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
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